sexta-feira, setembro 02, 2005

Colmeal



Transcrevo estes artigos sobre Colmeal, concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Qual será a verdadeira história? Porque é que os GNR incendiaram a aldeia e mataram alguns habitantes, como diz a "memória popular" na zona?

Artigo retirado daqui

Eram mais ou menos dez horas da manhã, quando os habitantes do Colmeal, concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, foram surpreendidos por uma força da GNR que os expulsou de suas casas e lhes confiscou os seus pertences. Estava-se a 8 Julho de 1957. Quarenta anos volvidos no meio de todo o abandono a que ficou votado, e do elevado estado de degradação dos edifícios, o Colmeal serve de campo de pastagem dos animais daquele que se diz dono da aldeia. Mas há quem não esqueça esta injustiça.

E este daqui

Esta freguesia situada a 15 KM para Sudoeste do concelho é uma povoação “fantasma” desde os anos 50. É formada pelos lugares de Colmeal, Bizarril, Milheiros e Luzelos. A povoação com o antigo nome de “Colmenar” foi doada por Fernando II, rei de Leão em 1183 aos monges da ordem militar de São Julião do Pereiro. A freguesia pertenceu ao concelho de Pinhel até 12 de Julho de 1895. Em 1956 os habitantes desta localidade foram despejados das suas casas e fixaram-se em outras localidades do concelho.
No meio das ruínas pode-se admirar os destroços de um casa quinhentista que no topo do balcão, entre a porta e a janela, ostenta o brasão dos Cabrais. Supõe-se que terá pertencido a Pedro Álvares Cabral.
Na zona da “Quinta do Ruivo”, encontramos o Castelo de Monforte também conhecido por “Castelo dos Mouros”. Situa-se num alto, sobranceiro à confluência do rio Côa com a ribeira da Canada, num vale apertado. A fortaleza terá sido construída entre os séculos XII e XIII, pois a primeira referência a ela é feita no Tratado de Alcanizes.
Na pequena aldeia de Luzelos encontram-se ainda 4 esteios de pedra, dispostos ao alto em formação quadrangular, a que se chamava “tronco” e que servia para colocar lá os animais que tinham excesso de volume sanguíneo. Com um golpe no pescoço era retirado do animal o sangue considerado como necessário sendo posteriormente fechado com um alfinete de segurança. O sangue era distribuído pelos presentes e, depois de cozido, servia para a confecção de alimentos.
A capela de Luzelos é dividida em 3 naves. O altar-mor apresenta uma tribuna ao género maneirista. As 4 colunas, de fuste liso, negras, de ornatos dourados, assentando em mísula e rematadas por capitéis compósitos, enquadram uma tribuna alta e larga.


Este é daqui...

Figueira de Castelo RodrigoColmeal: a vila perdida de Pedro Álvares Cabral
Colmeal, no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo (Guarda), é pátria do silêncio, fantasma, embora terra brasonada pelos Cabrais que descobriram o Brasil em 1500.
Silêncio apenas aqui reina, intercalado pelo muralhar das águas dos ribeiros, por entre ruínas, pedras informes, ervas daninhas e o velho palácio que ostenta a divisa de Pedro Álvares Cabral, de seus ascendentes e descendentes, mas só. É sede de uma freguesia sem ninguém, com São Miguel por orago, nas fraldas da Serra da Marofa e perto de 90 residentes e 67 eleitores distribuídos pelas "anexas" de Bizarril, Milheiro e Luzelos.
Em 1960 tinha 338 habitantes em 108 fogos, que hoje se resumem ao "nada" do despovoamento, de ruína, dos charcos e das ruas sem crianças nem velhos. Apenas regatos onde "cantam" rãs. Em 1183 o rei de Leão, Fernando II, quando estava em Ciudad Rodrigo (Espanha), doou a povoação aos monges de São Julião do Pereiro, ordem militar cuja sede se sabe ter sido em Cinco Vilas, no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, muito perto do também esquecido e arruinado Castelo de Monforte. A doação foi confirmada pelo Papa Lúcio II em Abril do mesmo ano, de acordo com o "Bullarium de Alcântara" (José J. Silva). Diz Júlio António Borges no seu "Roteiro Turístico do Concelho" (de Figueira de Castelo Rodrigo) que a freguesia era outrora conhecida por "Colmeal das Cebolas" dada a predominância deste produto agrícola na terra. Mas, diz-se também, que o nome terá provindo das suas colmeias de mel e cera. Era então conhecida por "COLMENAR". A aldeia de Colmeal, teve como donatários os Condes de Belmonte, "Cabral" de que subsiste o brasão alaranjado no portal principal da residência. D. Afonso V manteve a jurisdição da terra a Fernão Cabral, pai de Pedro Álvares Cabral, que a herdou de seu pai, Vasco Fernandes de Gouveia, designado em 1450 para "Alcaide" de Castelo Rodrigo. A agora "fantasma" freguesia teve Juiz de Fora de Pinhel, igreja matriz, forno, gente e o "Chafariz do Miradouro" de Pedro Álvares Cabral. Em 1434, D. Duarte concedeu "Carta dos Portos" de Castelo Rodrigo e Almeida a Vasco Fernandes Gouveia, cargo já desempenhado por seu pai, além dos direitos reais de Castelo Rodrigo (agora classificada como Aldeia Histórica), decisão também confirmada por D. Afonso V.
Resumindo: Colmeal passou a pertencer a Fernão Cabral e sua esposa, Isabel de Gouveia a partir de 19 de Agosto de 1476, data em que foi lavrada a carta de D. Afonso V dada em Torres Vedras para, como diz José J. Silva, "evitar qualquer impedimento que poderia surgir com a dádiva de Castelo Rodrigo ao Conde de Marialva".Tal como o "palácio " tudo está em ruína em Colmeal: a igreja dedicada a S. Miguel ainda resiste com um fresco parecendo representar Adão e Eva, o campanário, as ogivas, colunatas, contrafortes.
Fernão Cabral foi fidalgo da Corte, alcaide-mor de Castelo Rodrigo, Corregedor das comarcas da Beira e Riba-Côa, conhecido então como "Gigante da Beira" tal era a sua estatura física. O "reitor" de Figueira de Castelo Rodrigo, Padre Canário Martins, explicava no jornal "Amigo da Verdade" em Janeiro de 1981 toda a linhagem de Pedro Álvares Cabral e a sua ligação a Colmeal: "Toda a gente sabe que Pedro Álvares Cabral, o glorioso descobridor do Brasil, era filho de D. Fernão Cabral, alcaide-mor de Belmonte e de D. Isabel de Gouveia. Esta nobre senhora era filha do alcaide-mor de Castelo Rodrigo, João de Gouveia e de D. Leonor Gonçalves, irmã de leite de El-Rei D. Duarte. Por isso, na carta da capitania-mor e poderes que Álvares Cabral levou quando foi enviado às Índias por capitão, é chamado Pedro Álvares Cabral de Gouveia". E o padre descreve a casa dos "Cabrais" em Colmeal:
- "o que muitos ignoram é que ainda existe ao cimo de uma escada de granito com balcão, na verga da porta de uma casa completamente arruinada do Colmeal, é bem visível, o brasão dos Cabrais, que tem por armas, em campo de prata, duas cabras vermelhas possantes armadas de negro".
Tal como o "palácio " tudo está em ruína em Colmeal: a igreja dedicada a S. Miguel ainda resiste com um fresco parecendo representar Adão e Eva, o campanário, as ogivas, colunatas, contrafortes. As tumbas interiores estão esventradas. A erva, os arbustos, os ninhos das aves apoderaram-se da antiga casa de culto. Colmeal teve como Irmandades S. Sebastião e S. Miguel, foi "couto de homiziados" dado o despovoamento que sofreu com as guerras com Espanha, pertenceu ao concelho de Pinhel até 12 de Julho de 1895, quando passou a integrar o concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Guerra Maio, descrevia em 1945, Colmeal já a freguesia como localidade que "resume-se a 12 fogos e a 62 habitantes, e a paz em que vive é tão arcaica que não há ali caixa de correio, nem padre, nem regedor, nem sombra de autoridade, o que aliás não é preciso, pois jamais houve ali um desacato e muito menos um crime". Afirmava-se então que "há cinco anos que não morre ali ninguém e o abade de Freixeda vai lá, de tempos a tempos, dizer missa e na romaria incorpora-se toda a terra ao som do único sino da velha igreja, que badala sem cessar acordando o vale numa alegria festiva triunfal."
Colmeal definhou no tempo com o fim sofredor dos seus já parcos habitantes em 1956, quando forças da GNR deram ordem de abandono aos residentes, depois de acção judicial contra os próprios instaurada por novos donos que entretanto adquiriram a velha povoação. Homens, mulheres, jovens tiveram de escolher nova residência em algumas das terras que são hoje anexas da "fantasma" freguesia cuja Junta está sediada na também anexa Bizarril. Contudo, já em 12 de março de 1931 tinha sido proposta a extinção da freguesia por alegada falta de pessoas que, diz José Silva "soubessem ler e escrever, ser muito difícil organizar comissões de Juntas de Freguesia e nomear regedores. O presidente da Câmara de Figueira de Castelo Rodrigo, Armando Lopes, disse à Agência Lusa nada poder fazer para recuperar e revitalizar esta "terra perdida de Pedro Álvares Cabral" por ser "quinta particular". O autarca não esconde o interesse histórico, cultural e tradicional da velha Colmeal, conhecida ao longo dos tempos por "Colmeal das Cebolas, Colmeal das Donas, Colmeal das Rolas ou Colmeal de Cimo-Côa".
Sem nada legalmente poder interferir em bens particulares "mesmo quando uma aldeia/quinta foi comprada por privados", Armando Lopes reconhece que Colmeal poderia ser mais um polo de turismo cultural em plena Serra da Marofa. Enquanto isso, sem monumentos classificados, crianças ou adultos, agricultura ou rebanhos, terreiros e festas, Colmeal continua a morrer e com ela uma terra da história e da vida de Cabral, talvez uma terra ainda por descobrir. O poeta Artur Gonçalves perpetuou assim a morte de uma terra:
- "Colmeal não é sede de freguesia/em realidade, porque toda a gente/que, há tantas décadas, ali vivia/p´ro Bizarril saiu, muito descontente".

José Domingos (Lusa)

8 comentários:

Diabo da Tasmânia disse...

Como os terrenos da aldeia foram comprados por um particular, o proprietário decidiu através de uma acção judicial expulsar quem lá vivia, com o auxílio da GNR. Apesar da injustiça e de não se ter feito outra coisa das terras a não ser pasto, não me consta que tenha sido uma saída conflituosa (eram camponeses, nos tempos da velha senhora, no interior e não havia TVI) uma vez que tudo terá sido legal. A aldeia manteve-se, mas como estava desabitada foi-se degradando, embora ainda existam algumas casas, inclusive a igreja.
Merece uma visita, pelo valor histórico e pela atrocidade cometida (apesar do difícil acesso).

sonhos sonhados disse...
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Vagabundo disse...

Assim que uma das minhas Fugas me permitir, seguirei o conselho do diabo da tasmania, pelo que no post, não poderei deixar de o fazer.
Apesar de já ter lido algo sobre o assunto, reconheço que não conhecia os pormenores.
Obg por este momento de cultura.
(Marylou, qt á tua sugestão de um dia nos conhecer-mos...talvez, o amanhã é sempre possivel)

Sulista disse...

beeeeeeeeeeeem....minha alama ficou parava a ler este post....mt se aprende a visitar os outros blogsamigos ;-)

Até breve!
Abraço

Luh disse...

Diabo da tasmânia conheces a zona?
Imagina-te ser corrido de casa...
Conta mais coisas...
Vagabundo, sonhos sonhados e sulista obrigada pela visita.

snail disse...

Já tinha ouvido esta história, tal qual a conta o Diabo da Tasmânia. Naqueles tempos, tudo se podia fazer e tudo se fazia...

Anónimo disse...

Acabo de passar uns dias em Pinhel (linda cidade) e fiz algumas incursões pelas redondezas. Passei por uma placa que indicava Colmeal e decidi arriscar para vivitar. A estrada (caminho agricola municipal) está óptima, toda alcatroada até ao colmeal. Encontrei mais um local místico, cheio de energia mas perigoso pois as estruturas das casas está em constante derrocada. Cuidado com as pedras e paredes que caiem. Obrigado

Luisa Hingá disse...

Obrigada pelos comentários.